
A centelha de um novo movimento estudantil surgiu a partir da ocupação da reitoria da USP, em 2007. A ocupação, que durou 51 dias, rompeu de forma inegável com o muro de contenção da burocracia estudantil e se tornou um fato político decisivo para a evolução do movimento.
A mobilização teve seu estopim com os ataques promovidos pelo PSDB.
Já nos primeiros meses de mandato, o ex-governador de São Paulo, José Serra, baixou um conjunto de cinco decretos que feria a autonomia universitária, aprofundando a submissão das universidades paulistas (USP, UNESP e UNICAMP) ao grande capital. Os decretos de Serra visavam impedir o controle das verbas pelos reitores das universidades, atrelando as instituições de ensino superior aos interesses das grandes empresas. Para levar a cabo estes ataques, Serra nomeou como Secretário do ensino superior um conhecido político corrupto ligado a uma grande rede de universidades privadas. Essas e várias outras medidas causaram, desde os primeiros dias do ano (2007), revolta e indignação em toda a comunidade universitária. Em respostas, os estudantes protagonizaram uma das maiores lutas em defesa da educação pública dos últimos 20 anos.
No dia 3 de maio de 2007, centenas de estudantes da Universidade de São Paulo ocuparam a reitoria. O movimento começou controlado pela burocracia estudantil (PT, PCdoB, Psol e PSTU), mas que rapidamente perdeu o controle. Estes partidos, utilizando da velha tática das “saídas institucionais”, tentaram combater os decretos com reuniões entre a burocracia universitária. O DCE, controlado pelo PT e PCdoB, orquestrou uma audiência com a então reitora, Suely Vilela, para discutir os decretos, mas ela se recusou a receber os estudantes. Revoltados, as centenas de estudantes que tinham ido para acompanhar as negociações, arrombaram um portão de aço e ocuparam a reitoria.
O movimento cresceu instantaneamente e logo ganhou uma dimensão estadual e até nacional, assumindo um caráter decididamente político contra os decretos do PSDB.
Na semana seguinte, os estudantes ocupados fizeram grandes assembleias com milhares de pessoas. O apoio à ocupação e à construção de uma greve era unânime e crescia a cada dia nos cursos. As propostas apresentadas pela reitoria, defendidos pela burocracia estudantil, era rechaçadas nas assembleias. A burocracia chegou a ser expulsa das mesas que controlavam tais assembleias.
Na terceira semana de maio, chegavam à ocupação da USP as notícias de grandes assembleias e das primeiras ocupações no interior do estado (Marília, depois Rio Claro, Assis, Ilha Solteira, Presidente Prudente e Franca). Os primeiros cursos começavam a entrar em greve na USP e na UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas). Barricadas de cadeiras se multiplicavam bloqueando os corredores e impedindo a entrada nas salas de aulas. Os conflitos se radicalizavam. Funcionários e professores também entraram em greve. Diretores-burocratas escreviam cartas de repúdio e sobravam artigos nos jornais denunciando a “violência” estudantil.
O movimento tomou contorno nacional. Semanas após a ocupação da USP, os estudantes ocuparam a reitoria da UFAL (Universidade Federal de Alagoas), provocando um efeito em cascata. 13 ocupações foram organizadas atingindo a: UFSM, UFPE, UFMA, UFF, UFGD, UFPR, UFRGS, UFRJ, UFES, UFBA, UFPA e UFJF. As ocupações unificaram a luta. Os estudantes das universidades federais apoiavam a ocupação da USP e protestavam contra a Reforma Universitária. No dia 28 de maio, somavam-se à luta os funcionários de 34 universidades federais, que entravam em greve contra Lula por melhorias salariais.
Ultrapassando a burocracia estudantil
As entidades estudantis foram transformadas em “balcões” de carteirinhas ou em “palanques” para a esquerda pequeno burguesa “estrelar”. De um lado, o poder de corrupção do Estado e, do outro, os jogos acadêmicos com a burocracia universitária.
O DCE, assim como a esmagadora maioria dos CAs, sob o controle da esquerda pequeno burguesa, transformaram-se em entidades fantasmas desvinculadas do conjunto dos estudantes, atuando de maneira independente, de acordo com as deliberações de sua direção majoritária.
Durante a ocupação da reitoria, a direção do DCE foi ultrapassada pelo fórum legítimo, a assembleia geral, e nos comitês de luta. Estes instrumentos praticamente dissolveu o poder da burocracia, pois permitiram que um maior número de estudantes decidisse democraticamente e permanecessem sendo a principal ferramenta para a organização da luta dos estudantes. Embora tenha sido boicotada de todas as maneiras, a Assembleia Geral sobreviveu às tentativas de dissolução devido à presença massiva dos estudantes e ao fato de as Assembleias terem sua autoridade, independente da burocracia estudantil.
A partir do encontro, foi criado um Comando Estadual de Greve formado por delegados eleitos nas assembleias de cada curso de forma proporcional ao número de estudantes presentes.
Traição da burocracia universitária
Apesar de a burocracia tentar acabar com o movimento desde os primeiros dias, já no primeiro final de semana esparralham o terrorismo que a ocupação iria ocupação USP2ficar esvaziada, foi após um mês de luta que o movimento sofre sua primeira grande punhalada. A direção da Associação dos Docentes da USP, baseando-se no “decreto declaratório”, editado por Serra, e nas suas conquistas salariais, decidem encerrar a greve da categoria, alegando que a luta estava ganha e abandonando os estudantes e funcionários.
Com a saída dos professores, cresceu a pressão contrária à greve. O PT e o PCdoB, que não participaram da ocupação, fazia campanha aberta. O PSTU e o Psol atuavam como uma quinta coluna, defendendo a desocupação dentro do movimento. A esquerda pequena burguesa tentou implodir o movimento por meio da burocratização das assembleias, além de unificar o discurso do refluxo do movimento. Sob esta alcunha, a burocracia tentou acabar com a greve, defendendo o rebaixamento das pautas, bem como uma carta de boas intenções da reitora que prometeu não aplicar nenhuma punição aos estudantes. Outro fato ampliou os ataques da burocracia estudantil à ocupação.
Em represália ao movimento, Serra mandou a tropa de choque invadir a Unesp Araraquara. Mais de 100 estudantes foram presos.
A burocracia estudantil utilizou o fato para espalhar uma campanha de pânico, terror e aflição. A ameaça da invasão da USP, pela PM, foi utilizada para acabar com a ocupação. No dia 21 de junho, os professores e a burocracia estudantil, com um tom de chantagem, defenderam a proposta de desocupação da reitoria como única medida que poderia “evitar a invasão da PM e assegurar conquistas mínimas como a não punição dos estudantes”. Após 51 dias, o movimento chegou ao fim.
Ocupação mostra o caminho da luta
Ao contrário da propaganda da burguesia, o regime político burguês no Brasil é extremamente frágil. O momento atual, em particular, reflete essa situação, pois é resultado de um período de liquidação dos partidos da burguesia.
Para continuar com a política de espoliação, a burguesia é obrigada a recorrer ao fenômeno da Frente Popular, que consiste em uma engrenagem política complexa, cuja importância está na capacidade de controlar o movimento em geral por meio do controle das organizações da massa. Assim, a burguesia utiliza o PT, PCdoB, Psol e PSTU para controlar a luta contra os ataques.
O movimento na USP iniciou a ruptura com a política da “Frente Popular”. A ocupação de 2007 abriu caminho para a falência da tradicional política de colaboração de classes dentro do movimento estudantil. Este novo movimento vem apontando a tendência latente das massas, de uma completa revolução nas organizações, varrendo das entidades a estrutura e as direções burocráticas, paralisadas, esvaziadas e atreladas aos governos burgueses, retomando-as para a luta.