
As eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira (3), representaram uma severa rejeição popular a Donald Trump e consolidaram o que está sendo chamado no mundo de chamada "onda azul", em referência à cor do Partido Democrata.
A expressiva vitória democrata garantiu o controle tanto da Câmara dos Representantes quanto do Senado e foi amplamente impulsionada por mulheres, jovens (de 18 a 29 anos) e minorias étnicas. Uma clara resposta aos setores conservadores e xenofóbicos que apoiam as políticas de Trump.
Além de recuperar o controle das duas casas do Congresso, o partido Democrata conseguiu vencer disputas importantes por cargos estaduais, como governos e prefeituras, em estados que votavam nos republicanos havia décadas.
As eleições de meio de mandato representam um referendo direto sobre os dois primeiros anos do segundo mandato de Donald Trump. Mesmo sem estar na cédula, o presidente personalizou a campanha, e o resultado final — com sua aprovação na casa dos 32% — é visto como um claro sinal de insatisfação popular com as promessas não cumpridas.
A insatisfação com a alta do custo de vida (alimentos e gasolina), as guerras comerciais e, fundamentalmente, as tensões sociais e a guerra contra o Irã pesaram de forma decisiva na perda de apoio do governo, inclusive em redutos tradicionalmente rurais e republicanos.
Os democratas avançaram sobre territórios considerados "invioláveis" pela direita há décadas. Os exemplos mais marcantes estão no Kansas, onde a vitória de Adam Hamilton quebrou um jejum democrata para o Senado que durava desde 1932; no Texas, que elegeu James Talarico, o primeiro senador democrata eleito desde 1988; na Carolina do Sul e no Maine, onde os eleitores destronaram nomes tradicionais do Partido Republicano após décadas de hegemonia conservadora e elegeram democratas.
Na Geórgia, que votou em Trump em 2024, o senador democrata Jon Ossoff garantiu a reeleição ao derrotar o candidato republicano Mike Collins, consolidando o controle democrata nesse Estado-chave. Ossoff apresentou seu adversário como aliado de um "presidente fracassado" e fez do aumento do custo de vida um dos temas centrais de sua campanha.
O novo arranjo de poder que coloca o Congresso e alguns estados sob o domínio da oposição significa o início de uma forte fiscalização sobre a Casa Branca, com a abertura iminente de comissões de investigação e o travamento de pautas ultraconservadoras da agenda de Trump.
O triunfo dos democratas nas urnas não reflete uma adesão automática dos eleitores às propostas da legenda, mas sim o repúdio às ações conduzidas pela ala republicana.
Historicamente, o Partido Democrata também conduz a agenda imperialista dos Estados Unidos. Sob a gestão de Joe Biden, por exemplo, as operações militares no exterior e o suporte às grandes corporações continuaram ativos, sendo o declínio de sua popularidade o fator crucial para o retorno de Donald Trump ao poder em 2024.
Contudo, após dois anos, o descontentamento popular mudou de alvo. Parte do eleitorado que havia apostado em Trump retirou seu voto de confiança dos republicanos, optando por migrar para a oposição ou simplesmente não comparecer às urnas. O resultado das urnas deixou evidente a forte desaprovação ao governo vigente que, ao contrário do que prometeu em campanha, não pôs fim às guerras e nem resolveu a decadência econômica do país. Mas ele também coloca os Democratas em xeque, uma vez que muitos foram eleitos com discursos que representam a contra hegemonia do capital sobre a sociedade. Os valores que fizeram os estadunidenses acreditarem no “sonho americano”, como o individualismo, o consumo, a meritocracia e a ideia de que o mercado se autorregula já não conseguem mais serem vistos por todos como o único caminho possível. A crise no império segue seu rumo.
Foto: Paul Sancya/AP/picture alliance