
Desde 10 de setembro, os trabalhadores e trabalhadoras dos Correios estiveram em greve. Pela primeira vez em muitos anos, a categoria construiu uma mobilização nacional com um calendário unificado, reunindo os 36 sindicatos que representam trabalhadores dos Correios em todos os estados do país.
Não foi uma greve isolada, uma disputa localizada ou uma simples negociação salarial. Foi um movimento contra um projeto de retirada de direitos, contra a precarização do trabalho e contra um modelo de reestruturação que, na avaliação dos trabalhadores, ameaça desmontar os Correios enquanto empresa pública, nacional e socialmente necessária.
A categoria fez sua parte e chegou à greve depois de meses tentando negociar. Participaram das mesas de negociações, apresentaram propostas, buscaram mediação e procuraram construir uma saída negociada. Mas a direção da empresa endureceu. A cada rodada, novos ataques apareceram sobre a mesa. E foi diante desse cenário que os trabalhadores disseram basta e levantaram a palavra de ordem Fora Emmanoel Rondon! e Fora Natália Mota!, respectivamente, o presidente da empresa e a diretora de gestão de pessoas.
A força da unidade
Há muitos anos não se construía uma greve dos Correios com tamanha unidade entre os sindicatos de todo o país, em um calendário comum de mobilização. Essa unidade é histórica porque rompe com a fragmentação e mostra à direção da empresa que não existe negociação forte quando cada trabalhador luta sozinho.
São trabalhadores da distribuição, atendimento, captação, tratamento, transporte, áreas administrativas e tantos outros setores que disseram juntos: não aceitaremos que a crise da empresa seja jogada nas nossas costas!
A campanha salarial começou com a apresentação da pauta dos trabalhadores e uma longa sequência de reuniões. A primeira proposta econômica da empresa previa apenas 0,87% de reposição salarial. Nem 1%, ou seja, inferior à inflação acumulada. Os trabalhadores a rejeitaram.
A empresa, então, passou a apresentar uma proposta de reposição integral da inflação, chegando a 4,35% sobre o salário-base. Mas a luta envolve mais que reposição salarial. Direitos estão sendo retirados, funções ameaçadas, condições de trabalho precarizadas. Está em risco o plano de saúde da categoria.
Além disso, segundo as entidades sindicais, a proposta não alcançava da mesma forma funções e gratificações. A Empresa oferece com uma mão e tira com as duas.
O ataque mais grave: o plano de saúde
A direção dos Correios quer alterar a condição da empresa no custeio da assistência médica, deixando de ser mantenedora do plano e passando para a condição de patrocinadora, o que representa uma ameaça concreta ao futuro da assistência médica de trabalhadores ativos, aposentados e dependentes.
A categoria já enfrenta um plano precarizado, problemas de atendimento, dificuldades de cobertura e custos que pesam sobre o trabalhador. Alterar a responsabilidade da empresa sobre esse plano piora a situação.
O projeto de reestruturação
A direção dos Correios apresenta um projeto de reestruturação como solução para a situação financeira da empresa. Mas os trabalhadores conhecem o conteúdo dessas medidas na prática: fechamento ou redução de unidades, programas de desligamento, redução de postos de trabalho, sobrecarga, precarização, alteração de funções, ameaças sobre direitos, pressão sobre quem permanece. Trata-se de uma política de redução de custos que tem como alvo permanente a força de trabalho.
Por isso, a categoria passou a chamar esse projeto pelo nome que considera mais adequado: desestruturação dos correios. Os trabalhadores não aceitam que a conta seja automaticamente colocada sobre seus ombros.
Quem está na agência, no CDD, na unidade operacional, na distribuição e nas áreas administrativas não é responsável pela gestão da empresa e não criou a crise. Mas são esses trabalhadores que todos os dias fazem os Correios funcionarem.
Querem transformar o domingo em dia comum
Outro ataque que mobilizou a categoria está relacionado ao trabalho aos finais de semana. A proposta da empresa de alterar o tratamento do trabalho aos domingos abre espaço para transformar o domingo em um dia comum de trabalho, com possibilidade de convocação e compensação posterior.
Na prática, isso significa colocar em risco uma conquista fundamental dos trabalhadores: o direito ao descanso e à convivência familiar nos finais de semana. Enquanto o debate nacional aponta para a necessidade de reduzir a jornada e enfrentar a escala 6x1, os Correios caminham na direção contrária. A categoria denuncia também as tentativas de implantação da jornada 12x36 e o avanço da convocação para atividades aos finais de semana.
A categoria tentou negociar, mas a empresa escolheu o confronto
A greve não foi a primeira opção dos trabalhadores. Durante meses, as entidades sindicais participaram de negociações. As representações sindicais procuraram inclusive estabelecer diálogo com o Governo Federal, considerando que a indicação da presidência dos Correios passa pelo governo.
Também foram realizadas tentativas de mediação junto ao Tribunal Superior do Trabalho. Mas as negociações não avançaram. A empresa manteve posições que a categoria considerou inaceitáveis. E a greve foi deflagrada.
Ataques à organização sindical
Durante a sustentação oral da representação da empresa, foram feitos ataques a instrumentos fundamentais da organização sindical, incluindo as liberações de dirigentes sindicais e as cláusulas relacionadas à contribuição assistencial e à taxa negocial.
Para os trabalhadores e sindicatos, isso não pode ser tratado como uma questão secundária. Porque sem sindicato forte, trabalhador fica sozinho. Sem dirigente liberado para representar a categoria, diminui-se a capacidade de fiscalização e negociação. Sem estrutura financeira, enfraquece-se a capacidade de organizar assembleias, mobilizações, campanhas salariais e ações jurídicas.
Sem organização coletiva, a empresa negocia individualmente com milhares de trabalhadores isolados. E trabalhador isolado não tem força.
O ataque aos sindicatos também é um ataque à capacidade de resistência da classe trabalhadora. Não é coincidência que, no momento em que os trabalhadores estão unidos nacionalmente, apareçam propostas e discursos que questionam justamente os instrumentos que permitem essa organização.
A empresa correu para o dissídio
No primeiro dia da greve, a empresa, incapaz de negociar, recorreu ao Tribunal Superior do Trabalho. O TST determinou a manutenção de 80% do efetivo durante a paralisação. Em 21 de setembro, teve início o julgamento do dissídio coletivo dos Correios no Tribunal Superior do Trabalho (TST).
A sessão foi suspensa após a empresa apresentar, no sábado, 19 de setembro, novos documentos que foram juntados aos autos sem que as representações dos trabalhadores e seus advogados tivessem tempo hábil para analisar o conteúdo e se manifestar sobre as informações apresentadas.
Diante dessa situação, o presidente da sessão determinou a suspensão do julgamento e concedeu 48 horas para que os advogados das federações dos trabalhadores pudessem ter pleno acesso à documentação, analisá-la e apresentar suas manifestações, garantindo o direito de defesa e o contraditório no processo.
Logo após a suspensão da sessão, os sindicatos realizaram assembleias em todo o país. E a resposta da categoria foi clara: a greve continuaria!
A retomada do julgamento ocorreu nesta quinta-feira, 24 de setembro e a greve não foi considerada abusiva. Foi determinado que os dias deverão ser compensados sem descontos nos salários dos grevistas desde que os trabalhadores retornassem imediatamente ao trabalho. Apesar de o resultado não ter sido favorável à categoria e de a justiça ter imposto a retirada de direitos históricos, os trabalhadores estão optando por encerrar a greve nas assembleias ocorridas após a divulgação do dissídio.
No entanto, a mobilização da categoria não terminou. Os trabalhadores prometem não dar nem um minuto de sossego para a direção que tenta entregar a empresa pública secular ao empresariado internacional. As lideranças do movimento informam que o movimento seguirá firme na fiscalização de cada setor, pronto para acionar greves ambientais caso a integridade física ou mental de qualquer profissional seja desrespeitada.
A persistência da categoria é o que determina o futuro da classe e a defesa de um serviço público de qualidade. Quem se opuser ao trabalho e à dignidade desses profissionais encontrará forte resistência, pois a classe trabalhadora foi, é e sempre será o verdadeiro motor dessa engrenagem.
A luta dos trabalhadores dos correios é uma luta em defesa do futuro
A luta atual não é somente pelo reajuste salarial. É pelo plano de saúde, pelas funções, pelo descanso, pela redução da jornada, condições de trabalho, manutenção das unidades, pela contratação de trabalhadores. É pela presença dos Correios em todo o país, pela valorização de quem trabalha, pela defesa da organização sindical. É pela própria existência de uma empresa pública capaz de cumprir sua função social.
Foto: divulgação Sintect/DF