
Gilberto Mauro, liderança do Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado de Minas Gerais (Sindimus-MG), apresenta, nesta matéria, algumas pontuações sobre os shows superfaturados pagos por prefeituras do interior a um seleto grupo de artistas — que recebem milhões por apresentação e, somados, acumulam mais de R$ 5 bilhões, valor superior ao orçamento anual do Ministério da Cultura, revelados pelo portal de jornalismo, De Olho nos Ruralistas.
Para além do ato escuso das prefeituras, para além da drenagem de dinheiro público que deveria financiar saúde, educação e cultura, há consequências mais profundas e silenciosas.
Para além da destruição da cultura local, da memória e da arte regional, impõe-se uma monocultura estética que exaure, empobrece e homogeneíza toda a diversidade cultural brasileira.
Para além da exclusão do músico local nos municípios onde acontecem estes shows, há a privação sistemática de trabalho e renda de milhares de artistas, gerando pobreza e desvalorização profissional em suas próprias comunidades.
Há também uma reflexão sobre estes próprios artistas. Eles são, em certa medida, fantoches do sistema. Serão descartados assim que a estrutura mudar o padrão — e o padrão, que produz em série, sempre muda. Sim, estarão milionários, mas tão pobres que a única coisa que terão é dinheiro. A sua arte se tornará, a cada ano, a cada dia, a cada segundo, algo cada vez mais descartável, um papel podre sem valor algum. Afinal, qual foi o lastro com a cultura, com a memória, com a poesia, com a própria beleza estética? Arte assim não perdura.
Tudo bem, para quem só quer dinheiro. Mas toda alma de artista — e acredito que todos ali tenham uma —, toda origem, nunca almejou apenas o lucro. Senão, nem seria artista.
O que há de se pensar, então? Eles também são vítimas da máquina deste sistema. Queiram ou não, mesmo sabendo que são, permanecem como escravos de luxo do capital.