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O governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e a Prefeitura de São Paulo aprofundam sua política de desmonte do patrimônio público ao colocar em risco a existência do Instituto Adolfo Lutz (IAL), uma das mais importantes instituições científicas do país. Em um movimento conduzido nos bastidores e sem qualquer diálogo com a comunidade científica, quatro prédios do complexo histórico do IAL, localizados na Avenida Doutor Arnaldo, estão na mira da demolição para a construção do chamado "Hospital Inteligente" ou Instituto Tecnológico de Emergência (ITE), que contará com investimento de R$ 1,9 bilhão do governo federal e do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), presidido pela ex-presidente Dilma Rousseff. O governo do estado de São Paulo entra com R$ 55 milhões.
A ameaça ao instituto centenário foi tema de audiências públicas na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), onde pesquisadores denunciaram o projeto como um "ataque à estrutura pública de ciência e saúde do Estado". "A demolição desses prédios será a destruição do instituto. O que seria um prejuízo enorme para a população do Estado de São Paulo e para a saúde do nosso povo", alertou Giselle Ibette Silva López Lopes, assistente técnica de pesquisa do IAL, durante a audiência.
Um Patrimônio Ameaçado
O Instituto Adolfo Lutz, com 134 anos de existência, é referência nacional e internacional em vigilância laboratorial e diagnóstico de doenças, atuando como um dos quatro Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacen) da região Sudeste. Entre suas atribuições estão o diagnóstico de meningites bacterianas, coqueluche, botulismo e hantavírus, além de ser centro colaborador da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) para arbovírus e influenza.
O complexo da Avenida Doutor Arnaldo, cujo edifício principal foi projetado pelo renomado Escritório Ramos de Azevedo, é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). Apesar disso, os planos do governo estadual, alinhavados com a União, preveem a demolição dos prédios da Bromatologia e Química, Pesticidas e Virologia, além da descaracterização do edifício central.
O projeto do "Hospital Inteligente", coordenado pela cardiologista Ludhmila Hajjar, prevê a utilização do terreno para erguer uma unidade de 800 leitos, com forte apelo tecnológico, a ser inaugurado em 2029 . Para a comunidade científica, a ironia é cruel: o "progresso" do novo hospital depende da destruição de um saber acumulado que também é, ele mesmo, tecnológico e fundamental para a saúde pública.
O Desprezo ao Investimento Público
A preocupação dos pesquisadores se justifica não apenas pelo valor histórico e científico do IAL, mas pelo enorme montante de recursos públicos recentemente investido em suas instalações. Nos últimos anos, mais de R$ 100 milhões foram aplicados na modernização da infraestrutura do instituto. Isso inclui a reforma completa dos sistemas de exaustão de gases dos prédios, a troca de portas corta-fogo, a reforma de biotérios e a modernização do único laboratório do Brasil capaz de realizar bioensaio em camundongos para detecção da toxina botulínica.
O ápice desse investimento foi a recente inauguração do laboratório NB3, de máxima segurança biológica (nível 3), especializado na manipulação de agentes de risco como tuberculose, antraz e hantavírus. A construção desse laboratório de ponta, que na semana passada foi usado para investigar um caso suspeito de Ebola, foi financiada pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), uma agência federal. Agora, todo esse patrimônio – e a capacidade de resposta do estado a emergências sanitárias – será literalmente "jogado na lata do lixo", nas palavras da presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), Helena Dutra Lutgens.
Sigilo e Contradições
A condução do projeto é marcada pela falta de transparência. Os servidores do IAL tomaram conhecimento do plano de demolição pelas redes sociais da coordenadora do projeto, Ludhmila Hajjar . "Jamais ninguém vai desalojar cientista para derrubar e fazer um hospital", afirmou Hajjar, em uma contradição com o próprio projeto que defende, que prevê exatamente a desocupação e demolição dos prédios.
O "Estudo de Publicização" do Ministério da Saúde detalha o cronograma: a "contratação de empreiteira para demolição" está prevista para o primeiro semestre de 2026, com conclusão entre julho e setembro do mesmo ano. O governo paulista afirma que o processo é conduzido "com respeito às atribuições de cada uma" das instituições, mas pesquisadores apontam que a comunidade científica não foi consultada previamente, violando o artigo 272 da Constituição Estadual, que exige consulta prévia para intervenções em áreas de pesquisa.
O Projeto e a Gestão Privada
Apesar do alto investimento público, a gestão do novo hospital não será pública. O "Estudo de Publicização" é claro ao delegar a "um ente de direito privado sem fins lucrativos, qualificado como organização social" a gestão da unidade. A justificativa do documento, alinhada ao ideário privatista, alega "maior eficiência na gestão" e "flexibilidade para contratação", argumentos recorrentemente criticados por especialistas em saúde pública.
A alternativa em defesa do patrimônio e da ciência
Enquanto o projeto avança, a resistência se organiza. A deputada federal Luciene Cavalcante (PSOL) e a deputada estadual Beth Sahão (PT) lideram a ofensiva política contra o que chamam de "passar o trator" no patrimônio público. Foram enviados requerimentos ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas e a diversas instâncias do governo para barrar a demolição.
A APqC defende uma alternativa: o novo hospital poderia ser construído em áreas do próprio complexo do Hospital das Clínicas que não envolvam a destruição do IAL, como o campo de futebol e a piscina da Faculdade de Medicina. Estima-se que a realocação dos laboratórios demandaria R$ 170 milhões adicionais, um custo que, para os cientistas, é inferior ao prejuízo de perder uma instituição estratégica.
A disputa pelo terreno da Avenida Doutor Arnaldo é, em última instância, a disputa pelo modelo de desenvolvimento científico e de saúde pública que se quer para São Paulo. De um lado, o descarte de um saber construído ao longo de mais de um século, sacrificado no altar de um "progresso" tecnológico de gestão privada. De outro, a defesa da memória, do serviço público e da ciência como patrimônio inalienável do povo brasileiro.
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