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Resenha
O Que é o Centrismo?
Leão Trotsky
Primeira Edição: publicado em La Verité, em 27 de junho de 1930, França.
No texto "O Que é o Centrismo?", escrito em 28 de maio de 1930, Leon Trotsky propõe uma análise marxista do conceito de centrismo no movimento operário, diferenciando-o claramente do reformismo e do comunismo revolucionário. O autor parte de uma provocação política para desenvolver uma reflexão teórica sobre as correntes políticas que oscilam entre os polos da luta de classes.
Trotsky inicia sua argumentação respondendo a críticas que classificavam os comunistas da Oposição de Esquerda como "centristas". Para ele, essa classificação é formal e equivocada, pois o que define uma corrente política não é sua posição num espectro linear, mas seu conteúdo de classe e sua orientação histórica. Assim, reformismo e comunismo revolucionário constituem as duas correntes fundamentais do movimento operário: o primeiro representa os interesses das camadas privilegiadas do proletariado, vinculadas à burguesia imperialista; o segundo expressa a vanguarda consciente e audaz da classe trabalhadora, orientada pela revolução socialista e pela ditadura do proletariado.
Somente a minoria mais avançada — o setor mais consciente e audaz da classe operária — pode tomar a iniciativa do cumprimento desta tarefa, minoria que, baseando-se num programa claramente definido e cientificamente elaborado, possuidora de uma grande experiência de luta operária, concentra em torno de si uma maioria sempre crescente do proletariado com a perspectiva de fazer a revolução socialista. Enquanto durar o capitalismo, que impõe ideias perniciosas ao proletariado, não se pode esperar que desapareçam as diferenças entre o partido — produto da seleção ideológica — e a classe — produto automático do processo de produção. Apenas depois da vitória do proletariado — caracterizada por um autêntico renascimento econômico e cultural das massas, isto é, pelo processo de liquidação das classes — o partido poderá dissolver-se pouco a pouco nas massas trabalhadoras até que, tal qual o estado, desaparecerá. Somente os charlatães ou os chefetes de seitas estéreis podem falar de revolução proletária e, por sua vez, negar o papel da vanguarda comunista.
Assim, as duas correntes fundamentais da classe operária mundial são o social-imperialismo, por um lado, e o comunismo revolucionário, por outro. Entre estes dois polos há uma série de correntes e agrupações de transição que mudam constantemente de roupa e se encontram sempre em estado de transformação e oscilação: às vezes oscilam do reformismo ao comunismo, outras do comunismo ao reformismo. Estas correntes centristas não têm, e sua natureza não lhes permite ter, uma base social bem definida. Enquanto o comunismo é o porta-voz da classe operária e o reformismo representa os interesses da cúpula privilegiada da mesma, o centrismo reflete o processo transicional no interior do proletariado, as distintas ondas dentro de suas distintas camadas e as dificuldades que estorvam o avanço a posições revolucionárias definitivas. Justamente por isso as organizações centristas de massas jamais são estáveis nem viáveis.
É certo que sempre haverá na classe operária uma camada de centristas crônicos, que não querem seguir com o reformismo até as últimas consequências mas que são organicamente incapazes de se converter em revolucionários. Por sua parte, as massas jamais permanecem muito tempo nesta etapa transicional: unem-se conjunturalmente aos centristas e logo avançam para unir-se aos comunistas ou voltam aos reformistas, a não ser que caiam, por um tempo, na indiferença.
O centrismo, portanto, é caracterizado como uma corrente instável e transitória, que reflete as dificuldades e contradições no interior do proletariado. Sem base social própria, os grupos centristas oscilam entre o reformismo e o comunismo, conforme as conjunturas históricas e o grau de mobilização das massas. Trotsky enfatiza que o centrismo não é uma posição permanente nem viável, mas sim uma etapa que tende a se dissolver em direção a um dos dois polos fundamentais, dependendo do contexto.
Um dos elementos centrais da análise é o exame do princípio da "autonomia sindical", bandeira levantada por grupos centristas. Trotsky demonstra que, historicamente, a autonomia foi utilizada pela burocracia sindical para garantir sua independência em relação ao controle operário, servindo aos interesses reformistas. No contexto da época, esse princípio torna-se a marca distintiva do centrismo, que busca preservar sua ambiguidade política diante das lutas concretas.
Trotsky conclui reafirmando a necessidade de clareza teórica e programática. A tarefa dos comunistas não é ocupar um suposto centro, mas construir a vanguarda revolucionária capaz de dirigir as massas na transformação socialista da sociedade. A posição marxista, sustenta, está acima das oscilações centristas, pois se fundamenta na compreensão científica da relação entre classe e partido, entre luta imediata e objetivo histórico.
O texto de Trotsky oferece uma contribuição relevante para o debate sobre as estratégias políticas do movimento operário, ao mesmo tempo em que adverte contra as ilusões da neutralidade e da autonomia abstrata, que frequentemente encobrem a adaptação à ordem burguesa.